terça-feira, 4 de dezembro de 2012

3 Dez. 2012

INTRODUÇÃO À INTERNACIONALIZAÇÃO E À
LOCALIZAÇÃO DE SOFTWARE
Achilles Colombo Prudêncio
Departamento de Informática e Estatística/UFSC
achilles@geness.ufsc.br
Djali Avelino Valois
Departamento de Informática e Estatística/UFSC
djali@geness.ufsc.br
José Eduardo De Lucca
Departamento de Informática e Estatística/UFSC
delucca@inf.ufsc.br
Resumo: O objetivo deste artigo é apresentar de uma maneira simples e
introdutória o que significa Internacionalização e Localização de Software,
mostrando os conceitos correlatos e como se dá o processo de
internacionalização e localização no desenvolvimento de um programa.
Pretende-se demonstrar a importância da aplicação destes conceitos e técnicas
quando se deseja atingir mercados externos e proporcionar melhor qualidade
de software e serviços. Apresentam-se os principais papéis dos profissionais
da tecnologia da informação e da tradução dentro deste nicho de mercado e
também se introduzem alguns conceitos técnicos básicos das principais
tecnologias utilizadas, visando apresentar esse mundo ao leitor.
Palavras-chaves: Internalização e Localização de Software; Aplicação de
Software à tradução; Aprimoramento de Software e Serviços.
Abstract: The purpose of this article is to present the meaning of Software
Internationalization and Localization in a simple and introductory manner.
Related concepts are explained as well as the internationalization and localization
process in the development of a program. The article demonstrates
the importance of the application of these concepts and techniques when
there is a desire to reach foreign markets and offer better quality software
212 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
and services. The principal roles of Information Technology and Translation
professionals within this market niche are presented. The paper also
introduces some basic technical concepts of the principal technologies utilized,
to help the reader better understand this world.
Keywords: Software Internationalization and Localization; Computer Aided
Translation; Software and Services Enhancement.
Introdução
Com a globalização da economia e o advento da Internet, tornou-
se muito mais fácil atingir os mercados externos. Quem usa o
computador diariamente, já notou que a maioria dos programas
usados hoje em dia não foi criada no Brasil, embora muitos deles
estejam em português. A globalização e a conseqüente interação de
mercados fizeram com que a Internacionalização e a Localização
de Software e de websites passassem a ser uma preocupação constante
para as empresas que agem ou pretendem agir globalmente.
Para exportar software, assim como para exportar qualquer
outro produto, é necessário atender a certos requisitos de qualidade.
Alguns países inclusive exigem por lei que o software vindo de
fora seja traduzido para o seu idioma, como os países bálticos
(ALBUQUERQUE). Para tal, é necessário que se pense desde o
princípio do desenvolvimento do programa que este será distribuído
em outros idiomas.
Todo o texto do programa visível pelo usuário deve poder ser
traduzido, de forma a adaptar-se ao novo local de distribuição. Mais
do que isso, o texto do programa deve ser culturalmente neutro, ou
seja, não deve utilizar expressões que fazem parte de uma determinada
cultura específica (como gírias e expressões idiomáticas,
por exemplo). O mesmo deve ocorrer com quaisquer imagens que
façam parte da interface do programa, como os ícones.
Também se devem levar em consideração diversos outros aspectos
culturais e de convenção, dos quais o idioma é somente o
Introdução à internacionalização... 213
mais perceptível. Outros aspectos são a direção da leitura / escrita
do texto, regras de arredondamento dos números, a representação
de números em geral, ordenação alfabética, formatos de data, hora,
endereços e calendários. Por exemplo, nos Estados Unidos, na representação
de data, o mês vem antes do dia, diferentemente da
representação usada no Brasil. Além disso, há países que utilizam
outro calendário que não o Gregoriano, adotado na maioria, mas
não na totalidade dos países. Quanto ao formato de hora, no Brasil
adota-se o formato de 24 horas, enquanto nos Estados Unidos utiliza-
se 12 horas com indicação AM/PM para diferenciar os dois
períodos do dia.
Outros pontos relevantes são os métodos de ordenação de dados.
É necessário decidir se uma letra a acentuada deve aparecer
antes ou depois de uma letra a craseada ou com circunflexo, por
exemplo. As regras de ordenação mudam de idioma para idioma e
de país para país (mesmo dentro de países com o mesmo idioma).
Também as técnicas de leitura de teclado de caracteres utilizados
em outros idiomas (como o ñ do espanhol ou caracteres cirílicos,
árabes, japoneses, etc) e não presentes no idioma de origem do
software agregam complexidade aos sistemas.
É necessário levar em consideração todos estes detalhes (e muitos
outros) para desenvolver um programa de qualidade e que possa
ultrapassar fronteiras. As técnicas de Internacionalização e Localização
de Software permitem uma abordagem sistemática e objetiva
destes problemas.
A Internacionalização (I18N, no jargão da área1) é uma etapa
do processo de desenvolvimento do software que deve fazê-lo flexível
e neutro em termos de relações culturais, financeiras e legais
de um país. Um software internacional deve admitir, por exemplo,
distintas formatações de números e algoritmos de ordenação que
sigam as diferentes regras dos diversos idiomas. Para implementar
estas características é necessário utilizar procedimentos adequados,
para que seja possível localizar o software apropriadamente.
A Localização (L10N2) é o segundo passo na preparação de um
software para o mercado internacional, é neste momento em que
214 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
se trata da adaptação do mesmo para um local específico em que
ele será utilizado. Envolve tradução, adaptação cultural, adaptação
a normas e características do mercado-alvo.
A Internacionalização representa uma mudança no modelo de
planejamento e implementação de software que quebra velhos hábitos,
remove conceitos culturais, introduz flexibilidade e gera um
código adequado aos requisitos dos mais diferentes usuários. As
questões tratadas vão desde os caracteres que aparecem na tela,
como processá-los (ordená-los, por exemplo), como lê-los do teclado
(por exemplo, introduzir caracteres de idiomas asiáticos a
partir de teclados ocidentais), fuso horário e formatos padronizados
da cultura onde o programa será introduzido e um longo etc.
O trabalho de Localização diz mais respeito a um profissional
com perfil de tradutor, com grandes conhecimentos na área de
Informática (e possivelmente em um setor de aplicação específico,
como software básico, software para engenharia, software de
gestão, financeiro, de automação, etc). Acima de tudo, um perfeito
domínio do idioma-alvo é fundamental, pois a interface e a documentação
do programa (juntamente com o website da empresa produtora)
são as faces mais visíveis do produto para o cliente. Por
este motivo, nativos do idioma desejado devem sempre realizar a
Localização. Esta é uma regra de ouro no mundo da Localização.
Ambas as atividades são complementares e é fundamental que
sejam realizadas por profissionais competentes com know-how
adequado, para o sucesso de qualquer empreendimento além-mar.
Localização de software
Consultando o dicionário Merriam-Webster3, eis a definição que
consta para o termo. Localization: “to make local: orient locally”.
Dessa definição extraímos o propósito da Localização de
software nos dias de hoje: tornar um produto, um software, e tudo
relacionado a ele, local, adaptado à cultura, ao idioma e às convenIntrodução
à internacionalização... 215
ções locais. Isso é complementado pela definição dada pela LISA
(Localization Industry Standards Association - Associação de Padronização
do Setor da Localização): “Localization involves taking
a product and making it linguistically and culturally appropriate to
the target locale (country/region and language) where it will be
used and sold.” (LOMMEL)
Localização é o processo que adapta o produto ao mercado local.
Uma primeira concepção é que é somente o trabalho de tradução
dos textos, afinal, realiza-se a Localização a partir do idioma
(e aspectos culturais) original de criação do software (inglês, por
exemplo), chamado de idioma de origem ou de partida (source
language), para o idioma local (português, por exemplo), ou idioma-
alvo ou de destino (target language). Mas também é necessário
localizar diversos outros aspectos dos softwares: por vezes, um
software envolve, por exemplo, questões legais ou de práxis contábil
ou de negócios que não são adequadas ao país de destino. As adaptações
que se fazem necessárias também correspondem ao conjunto
de atividades que a localização engloba.
Retornando à definição de Localização feita pela LISA, temos mais
um conceito importante que se deve esclarecer: o conceito de locale.
Voltando ao dicionário Merriam-Webster, encontramos um conceito de
locale que se aproxima bastante da definição dada pelo setor de software:
“Um lugar ou localidade, especialmente quando observado em relação a
um evento ou característica em particular”. Essa é exatamente a visão
que se deve ter de um locale quando se fala de Localização de software:
uma região específica, com todas as suas nuances culturais, ou pelo menos
aquelas que deverão fazer parte e afetar o software.
Características já apresentadas anteriormente: a representação dos
números, a exibição dos caracteres ao usuário. Por exemplo: em árabe,
todo o texto é escrito da direita para a esquerda, mas os números
da esquerda para a direita. Quando se representa estas peculiaridades
em um software, usa-se um recurso chamado de escrita bidirecional.
Quando se representa um texto em chinês ou japonês, é necessário
utilizar caracteres especiais, que fazem parte de fontes capazes de
representar dezenas de milhares de caracteres (ou ideogramas) dife216
Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
rentes. É preciso ter em mente que cada locale exige um tipo diferente
de recurso, diferente de outros que se usam normalmente.
Não se pode esquecer que, além do idioma, outros aspectos
também compõem um locale. Pode-se falar o mesmo idioma em
dezenas de países diferentes que usam outros calendários, sistemas
de numeração, pesos e medidas e sistemas monetários. O
locale português do Brasil (caracterizado pela sigla pt-BR) usa o
calendário gregoriano, sistema de pesos e medidas Internacional e
como moeda temos atualmente o Real, mas no português de Portugal
(pt-PT) a moeda é o Euro. O locale inglês canadense (en-CA)
adota pesos e medidas do sistema Internacional, mas o inglês da
Grã-Bretanha (en-GB) usa o sistema métrico Imperial. Por essas
e outras características, os locales, no setor de software, são representados
por pares compostos por língua-região.
Nem sempre foi assim: houve um tempo em que o locale do
país onde a língua se originou era chamado de padrão e os outros
locales, que falavam a mesma língua mas tinham outras diferenças,
recebiam o país como derivação. Algo como Português Padrão
(de Portugal) e Português do Brasil. Por uma questão de diplomacia
abandonou-se esta classificação (CID).
Essa abordagem parece contraditória ao que se possa imaginar
sobre a internacionalização de produtos. A idéia não seria adaptar
um produto a ser vendido globalmente? Por que é necessário então,
regionalizá-lo? Na realidade, um processo é complementar
ao outro: a Internacionalização (que será definida em detalhes mais
adiante nesse texto) é o processo que generaliza um software culturalmente,
preparando o terreno e facilitando a Localização, que
é realizada posterior e separadamente.
Visão geral sobre o processo de Localização de software
A Localização é a adaptação de um produto a todas as particularidades
concernentes ao local em que será comercializado – leIntrodução
à internacionalização... 217
gislação local, identidades culturais, idioma, regras de
arredondamento e de ordenação, no caso de software – de tal forma
que pareça ter sido produzido no próprio mercado-alvo.
No caso da Localização de software, dividir o processo em etapas
favorece o gerenciamento e torna esta complexa tarefa
administrável. Após a análise do material original deve-se realizar
o levantamento terminológico dos termos utilizados na interface
com o usuário e na documentação. É ideal que o cliente (o produtor
do software) aprove os termos traduzidos. Em seguida, parte-se
para a localização da interface, dos menus, botões, caixas de diálogo
e outras strings (indicadores de status, mensagens genéricas e
mensagens de erro). Então, parte-se para as traduções da ajuda
on-line e da documentação, com base na terminologia pré-aprovada
já utilizada na interface. Em seguida, ocorre a revisão técnica e
lingüística do material traduzido. Assim, podem ter início a
reengenharia, que consiste em redimensionamento dos elementos
da interface de usuário, definição de teclas de atalho únicas e compilação
dos arquivos com textos localizados. Em seguida, pode-se
efetuar a captura de telas já localizadas – para exemplificar a execução
de uma tarefa, oferecer contexto ou descrever o resultado
de um processamento – para utilização na documentação e ajuda.
Posteriormente, ocorrem os testes e o DTP (desktop publishing,
editoração eletrônica) da documentação e da ajuda on-line. Finalmente,
chegamos ao controle de qualidade (conhecido como quality
assurance ou QA) pré-entrega. O controle lingüístico envolve um
check-list de dezenas de itens, dentre eles “Os nomes de títulos,
capítulos, cabeçalhos sempre foram traduzidos da mesma forma?”,
“Acrescentaram-se os códigos de discagem internacional aos números
telefônicos de contato ou estes foram substituídos pelos números
locais?” e “As referências culturais e/ou exemplos foram
adaptadas (José da Silva/John Doe)?”. Depois, há o teste de funcionalidade
e de compatibilidade do software internacional, envolvendo
questões como a entrada e saída de caracteres estrangeiros
em teclados diferentes, avaliação do funcionamento adequado de
funções como ordenação, busca, separação silábica no idioma-alvo,
218 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
integração com o sistema operacional subjacente utilizado no mercado-
alvo e outras.
O processo de localização em si supõe um fluxo de trabalho
complexo e cuidadoso, para a obtenção de um produto final de qualidade.
Em função da complexidade, a localização é quase sempre
terceirizada para empresas especializadas, pois se distancia das
funções básicas das empresas de desenvolvimento de software e
não é uma atividade realizada diariamente para justificar uma estrutura
interna fixa para tal. Mas não se pode descuidar em nenhum
momento desta atividade, uma vez que a interface e a funcionalidade
adequadas do produto representam a diferença entre conquistar
um mercado ou demonstrar pouca consideração pelo usuário
daquele mercado.
Perfil de um localizador de software
O trabalho envolvido na atividade de Internacionalização e Localização
de software exige o consórcio de diversos profissionais
com perfis específicos e que ainda não estão amplamente disponíveis
no mercado de trabalho brasileiro. Lingüistas/terminologistas,
tradutores, especialistas em redação técnica, engenheiros de
internacionalização, gerentes de projetos de localização e engenheiros
de QA são exemplos de novos profissionais que se envolvem
nestas atividades. Além disso, os profissionais de desenvolvimento
de software necessitam de capacitação adequada ou
reciclagem para incorporar as novas técnicas de desenvolvimento.
O localizador atuará na Localização de software e materiais
correlatos. É um especialista em tradução na área de software (e,
em alguns casos, especialista em software de determinados mercados
verticais), com sólidos conhecimentos do idioma em que o
software está escrito (idioma de partida) e perfeito domínio do idioma
para o qual está traduzindo (idioma-alvo). O idioma-alvo é o
idioma materno do localizador.
Introdução à internacionalização... 219
O localizador deve ser o responsável pela tradução de conteúdo
eletrônico (websites, textos de ajuda on-line de software, a interface
de software – botões, menus, janelas), da documentação técnica
de software e material colateral (material de marketing, embalagens
de produtos, folhetos de referência rápida, documentação de
registro, treinamento baseado em computador, etc), inclusive gráficos
e multimídia. É de sua responsabilidade também definir (em
cooperação com o produtor do software), traduzir e gerenciar a
terminologia envolvida nas atividades de tradução. O foco do trabalho
do localizador é a busca por qualidade, eficiência e precisão
nas tarefas, coerência terminológica, redução de custos totais, com
reuso de traduções legadas.
Também se podem atribuir ao localizador as atividades complementares
ligadas às questões lingüísticas, como a redação técnica
de manuais, revisão dos textos traduzidos (GUI – interfaces
gráficas, ajuda, manuais), levantamento e tradução da terminologia
utilizada no software, criação/manutenção de glossários de termos
técnicos, etc.
Para que possa desempenhar satisfatoriamente suas funções, o
localizador deve atender a determinadas demandas, listadas abaixo:
· Perfeito conhecimento da língua materna (língua-alvo).
· Sólidos conhecimentos da língua estrangeira de partida.
· Conhecimentos de informática.
· Conhecimentos básicos do funcionamento de sistemas
operacionais.
· Conhecimentos básicos do funcionamento de gerenciamento
de arquivos.
· Conhecer a terminologia e o jargão da área de informática,
conforme utilizado no país da língua-alvo.
· Conhecer ferramentas de tradução assistida (bancos de ter220
Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
minologia, memória de tradução, tradução automática, etc)
e recursos disponíveis (desde dicionários em papel a dicionários
on-line, websites, fóruns de debate, e outras fontes).
· Conhecer formatos de arquivos de dados e saber manipulálos.
· Conhecer o processo básico de Internacionalização e Localização
de Software.
Além disso, com a especialização cada vez maior destes profissionais,
torna-se desejável conhecer também outras tecnologias
e temas, como:
· Tecnologia subjacente à Web (servidores, navegadores,
HTML, XML, etc).
· Conceituação de codificação e conjuntos de caracteres.
· Funcionamento básico de redes de computadores (usuário).
· Programação (linguagens de script e/ou de programação,
arquivos de recursos, strings e seus problemas associados,
interfaces gráficas, codificação de caracteres).
É ainda muito desejável possuir formação na área de tradução e
conhecer os glossários de empresas de software. Ter traduzido textos
técnicos (artigos, livros, revistas) da área de informática é fundamental
para criar uma base de conhecimento sólida que ofereça
suporte ao trabalho de tradução/localização de software e websites.
O desenvolvimento de software no Brasil com vistas ao mercado
internacional cria também uma demanda natural pelo serviço
de localização, mas com uma peculiaridade em relação ao trabalho
que se realiza na maior parte do mundo: os softwares aqui
desenvolvidos deverão ser traduzidos do português para idiomas
estrangeiros (vertidos, no jargão da tradução). É importante perceber
que esta versão de um software escrito em português para
Introdução à internacionalização... 221
outros idiomas não é uma atividade corrente no setor da localização
(até pela falta de tradição exportadora do setor no Brasil).
Outra questão fundamental é a intransigência do mercado internacional
quanto à qualidade da interface dos programas (em alguns
países, a exigência da adaptação do software ao país é tema de
lei). Este é um ponto crucial: a tradução de qualidade é fruto do
trabalho de tradutores cujo idioma de destino seja o seu próprio
idioma materno. Nas traduções do português para outros idiomas,
é necessário que a tradução seja sempre feita por tradutores nativos
do idioma de destino e da região para a qual se destina o produto.
Em vista desta exigência internacional de qualidade, a localização
dos produtos brasileiros deverá envolver profissionais de localização
dos distintos países-alvo dos softwares, sob pena de nãoaceitação
dos produtos naqueles mercados. Afinal, a interface do
sistema e a documentação do mesmo são a cara do produto. Assim,
se uma interface estiver mal traduzida, a conclusão óbvia é
que o produto é ruim e o usuário terá a sensação de descaso do
produtor do software para com seus clientes. Pior ainda: se a
interface (e/ou a documentação) não estiver traduzida, o produto
será simplesmente inaceitável.
Exemplo de ferramenta de apoio à tradução
O trabalho de um tradutor-localizador tem peculiaridades próprias
da especialização. Diversas ferramentas computacionais estão
disponíveis para garantir qualidade, coerência e produtividade
do trabalho do tradutor-localizador. A título de exemplo, pode-se
ver a seguir a captura de tela de um software de localização de
programas feitos em Java. Esse software, apesar de ser um pouco
antigo, é um bom exemplo pois sua interface é simples. Quase
todos os programas de localização têm em sua interface os elementos
contidos nesse programa.
222 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
Cabe ressaltar que nos programas escritos em Java, quando devidamente
internacionalizados, todos os elementos de sua interface
que são passíveis de tradução estão separados em arquivos próprios.
Figura 1 - I18NEdit: ferramenta de auxílio à localização em Java
Na coluna à esquerda da figura, pode-se ver a lista de arquivos
com textos para tradução que compõem o programa a ser localizado.
No centro, vê-se os vários elementos de interface (Resource),
nos quais se encontram os textos a serem traduzidos (como botões,
menus, janelas, etc). No canto direito da figura está a tela de edição
do texto, que mostra o texto no idioma original e espaço para
inclusão da tradução do mesmo.
Introdução à internacionalização... 223
Em um programa de auxílio à tradução, basicamente esses são
os elementos: um editor de textos simples integrado a uma interface
que apresenta os arquivos passíveis de localização. A evolução das
tecnologias de localização integrou a esse conjunto um banco de
dados de termos e/ou orações, que será descrito em detalhes mais
adiante. Esse banco de dados assegura a coerência dos termos usados,
para que se traduza um mesmo termo ou oração de modo
igual à sua tradução anterior.
Problemas do software não internacionalizado
Antes de definir o que é Internacionalização de software, talvez
seja necessário mostrar sua importância. Embora seja possível localizar
um software sem sua internacionalização anterior, quando isto
ocorre, o processo fica extremamente propenso a erros e seu custo
final é muito elevado. Pior ainda, ele se restringe apenas à interface
visível do programa, desprezando as funcionalidades do mesmo, o que
pode inclusive gerar execução incorreta (como a ordenação incorreta
de dados, a leitura e exibição incorreta de caracteres, etc).
Não é possível alterar o código executável de um programa, de
modo que ele passe a trabalhar com as regras e convenções de
outros locales (por exemplo, usar vírgula para separar as casas
decimais ao invés de ponto, como ocorre em softwares feitos nos
Estados Unidos). Esse tipo de mudança deve ser introduzida diretamente
no código-fonte do programa. Escreve-se um programa
em determinada linguagem de programação (como Java, C e C++)
e chama-se o resultado do trabalho do programador de código-fonte.
Este código, escrito na linguagem de programação escolhida,
passa por um processo de compilação, que o transforma em um
programa executável, que já não é mais legível pelo programador,
pois está em uma linguagem de máquina (código-objeto ou código
executável). Nos programas comerciais, o usuário comum não tem
acesso ao código-fonte de um programa.
224 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
Antes da criação das técnicas de internacionalização, uma das
soluções que a empresa que desejava exportar seu programa para
outros mercados adotava era a contratação de uma equipe independente
da de desenvolvimento e cujo propósito de trabalho era traduzir
todos os textos que fossem necessários dentro do código do programa
(ALBUQUERQUE). Desse modo, não se extraía os textos
de dentro do código. Após a tradução, compilava-se o programa
novamente e assim se obtinha uma nova versão deste, agora localizada.
Apesar dessa solução ter sido viável a princípio, ela acarreta
muitos problemas.
O primeiro deles é que o processo de tradução é muito mais
complicado, pois o tradutor precisa ter conhecimentos técnicos de
programação, para identificar o que se pode e o que não se pode
traduzir dentro do código-fonte do programa. Um descuido ou falta
de informação pode introduzir erros no programa, que na pior das
hipóteses só serão descobertos na fase final de testes, o que provocará
erros de execução em um programa que já deveria estar em
uso sem problemas. Por outro lado, se um programador realizar a
tradução, a probabilidade de introdução de erros no código diminuirá,
assim como a qualidade da tradução.
Outro problema é o fato de que as novas versões localizadas do
software tornam a manutenção e atualização muito mais complexas
(ALBUQUERQUE). É necessário repassar cada nova
atualização ou correção, por mínima que seja, à equipe de localização,
que após a conclusão do trabalho devolve a versão localizada
à equipe de desenvolvimento, que verifica e corrige
novamente problemas do código. Esse processo torna o controle
de versões muito mais complicado e demorado, uma vez que é
preciso manter controle não só da versão principal do produto,
mas de todas as versões localizadas, de forma a assegurar a
uniformidade de recursos e funcionalidades de todas as versões.
A complexidade do controle de erros cresce muito, pois cada
versão pode apresentar erros únicos que exigem registro de acordo
com a versão do software.
Introdução à internacionalização... 225
Conforme o apresentado, a localização sem a prévia
internacionalização acarreta vários problemas que tornam inviável
a manutenção de um projeto de software, pois não cobre todos os
aspectos necessários e introduz uma complexidade desnecessária
na etapa de desenvolvimento.
Internacionalização de software
A LISA define Internacionalização do seguinte modo:
“Internationalization is the process of generalizing a product so
that it can handle multiple languages and cultural conventions without
the need for redesign. Internationalization takes place at the level
of program design and document development”. (LOMMEL)
Os conceitos e aplicações da Internacionalização de software surgiram
quando o mundo virtual começou a se interconectar, em grande
parte devido ao surgimento da Internet. Os bons programas, mais
do que realizar sua função, adaptavam-se ao usuário, em termos de
língua e convenções culturais. Por exemplo: um software de assessoria
contábil devia e deve atender aos princípios e conceitos da Contabilidade
aplicada na região de sua utilização (LOMMEL).
Como já visto anteriormente, pegar um software pronto, desenvolvido
sem qualquer interesse prévio em localização, e simplesmente
traduzir todos os textos que aparecerão, em meio ao códigofonte,
para o usuário após a compilação do programa, não garante
que o produto adapte-se completamente à região em que será vendido.
Pior do que isso, pode ser necessário desenvolver o software
outra vez, às vezes desde o começo, com pouco ou nenhum
reaproveitamento do código anterior. E para localizar esse software
para outras regiões será necessário repetir todo o processo.
As técnicas de internacionalização visam separar todo ou quase
todo o esforço de tradução do esforço de desenvolvimento do
software. Extraem-se do programa todos os textos a que os usuários
têm acesso, substitui-se cada texto de dentro do código por uma
226 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
palavra única, chamada identificador. Cria-se um arquivo com todos
estes textos, seus identificadores e traduções e introduz-se uma
função especial no programa, que lê o identificador e o locale determinado
no momento de execução do programa e procura imediatamente
no arquivo o texto correto a ser exibido. Há também a
criação de funções especiais que lidam com outras representações
específicas do locale: números, data e hora, ordenação de
caracteres e outras.
O fato de todas as strings (seqüências de caracteres que formam
orações ou frases) da interface visível ficarem em arquivos
separados do código-fonte do programa torna todas as ações
mais fáceis, tanto para os programadores quanto para a equipe
de tradução que realizará a Localização do software. Os programadores
não precisam preocupar-se com estes textos nem com
suas traduções, só precisam ter em mente que cada identificador
representa um texto que será substituído automaticamente pela
função de tratamento.
Os arquivos que contêm o texto traduzível são padronizados.
Por exemplo, é possível separá-los em tabelas: na primeira coluna
fica o identificador que faz referência ao texto e nas colunas adjacentes
ficam o texto na língua original e suas traduções. As funções
de tratamento dos programas simplesmente buscam o texto a
ser exibido na linha do identificador e na coluna do locale desejado.
Com a padronização do formato destes arquivos, é possível inclusive
criar programas para lê-los e editá-los apropriadamente,
as memórias de tradução.
Usa-se todo este conjunto de funções, programas e outros recursos
para assegurar o máximo de reaproveitamento de código e
funcionalidades. Uma vez internacionalizado, é possível localizar
um programa tantas vezes quanto for necessário e para tantos locales
quanto se desejar.
Introdução à internacionalização... 227
Além do software
Internacionalizar um programa não se resume a facilitar a tradução
de sua interface e ter o cuidado de que ele trabalhe dentro de seu
domínio e de acordo com as regras do locale. Existem ainda mais
alguns aspectos e elementos visuais da interface que se devem levar
em consideração para assegurar o sucesso do produto no mercado.
Além da interface original do software, é imprescindível que
toda a documentação que o acompanha – manuais, ajuda, websites,
embalagens – seja precisa, clara, sem gírias nem jargões técnicos
e completamente neutra e livre de referências e exemplos específicos
de uma cultura. (ESSELINK). Por exemplo, traduzir uma frase
subjetiva muito significativa no Brasil, algo que “não é uma
Brastemp”, perde completamente o sentido no idioma de destino,
ou ainda pior, pode adquirir um sentido ofensivo.
Também é preciso tomar esse cuidado ao usar ícones e imagens
em botões e outros elementos de interface. O uso de símbolos ou imagens
específicos da cultura brasileira, a menos que o contexto onde
eles aparecem no programa exija, pode confundir os tradutores quando
da localização do programa. O primeiro ícone de lixeira usado no
sistema operacional Mac OS, da Macintosh, foi confundido como um
ícone de caixa de correio pelos usuários na Europa. (ESSELINK)
A documentação do software deve seguir os mesmos critérios.
Geralmente a interface do software contém palavras soltas (nos menus,
textos dos ícones) ou frases curtas (de instruções em janelas).
Quando se trata da documentação é diferente, nestes casos sugere-se o
uso de um recurso lingüístico chamado Linguagem Controlada.
Uma linguagem controlada é um subconjunto da linguagem natural
que possui uma quantidade limitada de termos e expressões
que se podem usar (ESSELINK). Utiliza-se esse tipo de linguagem
principalmente para redigir documentos, manuais e afins. Ele possui
apenas um conjunto de termos aprovados pelos responsáveis
pela confecção do documento e como a lista de termos depende do
domínio do documento, na realidade não existe um padrão para a
228 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
Linguagem Controlada. Seu uso assegura que o texto não possua
ambigüidades e que só haja uma forma de interpretar cada informação.
Como o conjunto de termos é limitado, garante-se também
a coerência do texto. (ESSELINK)
Reengenharia
Um problema enfrentado na Internacionalização de software é
o espaço disponível para encaixar as traduções. O texto de orações
traduzidas para outros idiomas (latino, neste caso), a partir do inglês,
é em média 30% mais longo e pode chegar a 100% mais
longo quando se trata de palavras soltas (ESSELINK).
Figura 2 - Texto truncado
Pode-se tratar essa expansão de várias formas. Uma delas, usada
com freqüência, é simplesmente deixar um espaço a mais nas janelas
e botões para comportar o texto que tem possibilidade de
expansão.
Introdução à internacionalização... 229
Figura 3 - Tamanho da janela expandido para comportar mais texto
Outra técnica consiste em utilizar layouts, disposição de elementos
da interface, dinâmicos, que se ajustam automaticamente
ao texto e a outros elementos inseridos, mas isso pode gerar uma
situação em que o layout foge do controle do programador.
É necessário também que a interface do programa ofereça suporte
para representação de diferentes caracteres. Quando do desenvolvimento,
é preciso escolher um esquema de codificação que
possa comportar todos os caracteres dos locales que o projeto deseja
cobrir e que possibilite fácil expansão. Por exemplo, para suportar
caracteres orientais, o esquema escolhido deve suportar o
uso de caracteres double-byte (dois bytes). Outro exemplo é o caso
específico da língua árabe, em que é preciso também suporte para
escrita bidirecional. Para os desenvolvedores ocidentais, a melhor
escolha é o Unicode, que suporta todas essas exigências e assim
não aumenta a complexidade do desenvolvimento. Estas questões
de codificação de caracteres são tratadas no item a seguir.
230 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
É preciso também escolher a linguagem de programação apropriada,
de acordo com o ambiente operacional de desenvolvimento
do software, com a experiência do programador, com o suporte
existente para o conjunto de caracteres utilizado e também com o
suporte da linguagem para o domínio da aplicação.
Representação interna de caracteres
Como já mencionado antes, línguas com uma quantidade consideravelmente
grande de caracteres ou cuja representação difere
da usada no Ocidente, onde se desenvolveu a maioria das tecnologias
de informação, exigem outros sistemas de representação, conhecidos
no setor como Esquemas de Codificação de caracteres.
Nos primórdios da informática, quando a tecnologia da informação
se restringia aos Estados Unidos e a outros poucos países da Europa,
e quase não havia intercâmbio de informações entre eles, cada
qual trabalhou no seu próprio esquema de codificação, condizente com
a língua que falava. Quando surgiu a Internet e ampliou-se o intercâmbio
de informações entre os países, a tecnologia da informação passou
a fazer parte do dia-a-dia de cada vez mais países. Neste momento,
houve a necessidade de criar mais esquemas de codificações de
caracteres para representar mais idiomas e estender os esquemas já
existentes, também para comportar novas línguas. Estendeu-se o ASCII
(“American Standard Code for Information Interchange” - Código
Padrão Americano para Intercâmbio de Informações), usado nos Estados
Unidos, para comportar caracteres latinos e assim representar
português e espanhol, por exemplo.
Como todos sabemos, um computador entende apenas números,
mais precisamente código binário, zeros e uns. O código
ASCII, por exemplo, utiliza uma combinação de sete bits (um bit
representa zero ou um) para representar todos os seus caracteres,
num total de 127 caracteres possíveis, mais do que o necessário
para comportar o inglês.
Introdução à internacionalização... 231
Mas qual a necessidade de usar um número fixo de bits para
representar um caractere? Computação é uma ciência exata e
determinística, que se utiliza muitas vezes de algoritmos (seqüências
de passos pré-definidos) para realizar tarefas. Utilizando um
número fixo de bits para representar um caractere, é possível dizer
com certeza que a cada 7 bits sempre haverá uma letra, ou
outro caractere qualquer, e isso facilita e muito o desenvolvimento
de programas, pois é possível minimizar a verificação de erros.
Quando houve a necessidade de criar novos esquemas de
codificação de caracteres, percebeu-se que somente 7 bits não seriam
suficientes para representar todos os caracteres latinos, por
exemplo. Era necessário utilizar uma quantidade maior de bits, de
modo a poder comportar uma quantidade maior de caracteres. Era
preciso também criar novos algoritmos de ordenação, que levassem
em conta os novos caracteres. É aqui que entra o exemplo do
“a” acentuado e do “a” craseado, citado na introdução deste artigo.
O novo sistema que comportava todos os caracteres latinos
tinha agora 8 bits e passou a se chamar ISO 8859-14.
Mas, ainda que muitos esquemas de codificação estivessem
normatizados pela ISO (“International Organization for
Standartization” – Organização Internacional para a Padronização),
existiam muitas incompatibilidades com sistemas próprios,
em especial os criados no Oriente, que suportavam os conjuntos de
caracteres coreanos, chineses complexos e simplificados, japoneses
(diversos alfabetos), indonésios, etc. Era necessária uma
codificação universal que permitisse representar vários tipos de
texto, em línguas diferentes, dentro de um mesmo documento.
Para resolver esta situação, a ISO criou um novo padrão cujo
propósito seria comportar o máximo possível de caracteres, a princípio
usando dois bytes (16 bits) para representação de 65.536
caracteres diferentes. Esse sistema se chama ISO 10646 e a Unicode
Consortium, organização privada sem fins lucrativos, criada por
empresas e outros organismos interessados na padronização da
representação de caracteres, levou-o adiante e tratou de fundamentá232
Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
lo, padronizá-lo e estendê-lo ainda mais para permitir a representação
de uma gama ainda maior de caracteres (HARRIS).
Hoje o Sistema Unicode (como é identificado agora) comporta
mais de 96.447 caracteres diferentes. Existem codificações para o
latim e já houve propostas de codificações até para Klingon (para
os fãs de Jornada nas Estrelas) e Quenya (a famosa língua dos elfos
da trilogia O Senhor dos Anéis).
Brincadeiras à parte, o Unicode existe com o propósito de armazenar
informações de todas as línguas em meio digital, para
que seja possível guardá-las com mais segurança para posterior
estudo. Existem atualmente projetos acadêmicos que têm o intuito
de codificar dentro do sistema Unicode vários alfabetos hoje pouco
usados, línguas históricas como o Egípcio, por exemplo, e outras
simbologias, como línguas de sinais, simbologia matemática, etc
(UNICODE).
O Unicode Consortium desenvolveu vários esquemas de
codificação compatíveis, inclusive com os esquemas ISO. O UTF-
8 utiliza 8 bytes de representação e é compatível com o ISO 8859-
1, o UTF-16 estende o UTF-8 mantendo o mesmo padrão e adicionando
novas características e o UTF-32 é um esquema de
codificação completo, que comporta todas as línguas já codificadas
no mundo e possui ainda mais “espaço” para codificar muitas mais.
Os esquemas de codificação de caracteres tornaram-se tão importantes
que os sistemas operacionais derivados do UNIX (Linux, BSD,
MacOS) passaram a usar esquemas específicos para especializar-se
ainda mais no locale ativo. Por exemplo, para especializar o locale pt-
BR, é possível utilizar pt-BR.ISO8859-1 ou pt-BR.UTF-8.
Ferramentas de apoio à Internacionalização e à Localização
Conforme apresentado anteriormente, a internacionalização de
um software permite que este possa lidar com as exigências de
múltiplos locales, se necessário até ao mesmo tempo. Quanto à
Introdução à internacionalização... 233
interface visível pelo usuário e à documentação do software, a
internacionalização prevê a separação completa entre os textos da
interface e a lógica de funcionamento do programa, o que permite
traduzi-los separadamente.
Há duas categorias principais de ferramentas de localização: as
ferramentas lingüísticas (tecnologia lingüística) e as de administração
e gestão, ou seja, as ferramentas concebidas para facilitar e
automatizar fluxos de trabalho, processos, gerência de projetos,
produtividade pessoal, etc. O setor da localização tem uma demanda
considerável por ambas as categorias, afinal, a velocidade
e o volume de trabalho envolvidos na localização, além da demanda
de qualidade, tornam imperativo o uso de ferramentas. Além
disso, muitos usuários têm conseguido economias consideráveis e
outros benefícios com suas ferramentas.
A engenharia lingüística, a disciplina que produz tecnologia lingüística,
é um setor relativamente novo e seu progresso depende
da ascensão da computação e lida com uma das invenções mais
complexas do planeta, a língua. Sendo assim, a tecnologia lingüística
ainda não satisfez às expectativas ingênuas de alguns de seus
fundadores, que há muito tempo condenaram os tradutores humanos
ao desaparecimento. Entretanto, surgiram diversos sistemas
de tecnologia lingüística consagrados que auxiliam, em vez de substituir,
os tradutores humanos. A interação construtiva entre homem
e máquina parece destinada a durar por muito tempo.
As seções a seguir apresentam uma breve descrição das principais
tecnologias envolvidas, que configuram o que se convencionou
chamar de ferramentas CAT – “Computer Aided Translation”
(Tradução assistida por computador):
Sistemas de gerenciamento terminológico
A terminologia, ou seja, os vocabulários especializados de setores
e usos específicos, é a base em que se sustenta toda boa tradu234
Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
ção. O uso correto da terminologia apropriada em sistemas de
memória de tradução e de tradução automática (veja mais abaixo)
melhora a qualidade e reduz o tempo posterior empregado em correção.
Ao mesmo tempo, os tradutores humanos também necessitam
de recursos terminológicos superiores e fáceis de usar. Isto é
geralmente fornecido por sistemas de gerenciamento terminológico,
bancos de dados de termos que contêm entradas em diferentes idiomas.
Os bons sistemas são baseados em conceitos e não em palavras,
permitem gerência efetiva de sinônimos e estão integrados a
editores de texto para melhorar a produtividade do tradutor. O intercâmbio
de terminologias entre diferentes sistemas de
gerenciamento terminológico e entre estes e outras ferramentas,
como sistemas de tradução automática, é objeto de um trabalho
constante de padronização.
Memória de tradução (TM, do inglês “Translation Memory”)
As memórias de tradução são programas criados especialmente
para tradução de textos longos e repetitivos, como manuais e
documentos de ajuda de software. É um banco de dados que contém
traduções realizadas anteriormente. Nele, os textos nos idiomas
de origem e de destino foram previamente divididos em segmentos
e alinhados uns aos outros. Quando se compara uma nova
versão de um texto à versão antiga, o software de memória de
tradução identifica os segmentos equivalentes traduzidos no texto
antigo e insere-os no novo texto traduzido. Desta forma, o tradutor
não precisa re-traduzir todas as frases novamente e tem garantida
a coerência da tradução final. Além disso, a chamada “coincidência
parcial” (em inglês fuzzy matching) permite que se insiram automaticamente
os novos segmentos que são similares ao original,
mas não idênticos, com a indicação de similaridade, para posterior
edição por parte do tradutor, que avaliará quais são as alterações
necessárias para que o novo texto fique corretamente traduzido.
Introdução à internacionalização... 235
Estas ferramentas, na maior parte das vezes, também eximem
o tradutor de pensar na formatação do texto, pois “esconde” estes
detalhes de forma que o tradutor possa concentrar-se no conteúdo e
não na forma.
O uso eficiente de memória de tradução depende, dentre outras
coisas, da qualidade da tradução original (pois os erros que ela
contiver serão igualmente reproduzidos), do alinhamento (pois a
reutilização poderá depender do tamanho dos segmentos identificados)
e de como são tratadas as atualizações do texto de origem.
Além disso, mesmo as “coincidências de 100%” (em inglês, 100%
matches) poderão necessitar edição posterior para adequar-se a
sutis alterações de contexto ou à adaptação dos textos ao mercadoalvo,
como por exemplo, em um texto sobre automóveis, “freio”
em português brasileiro e “travão” em português europeu.
Quando dos primórdios da tecnologia de memórias de tradução,
cada programa, produzido por uma empresa diferente, usava seus
próprios arquivos internos para manipulação de traduções, que apresentavam
formatos internos diferentes. Mas, sempre houve o desejo
de que fosse possível compartilhar informações entre tradutores
usando ferramentas diferentes.
Pensando nisso, organizações internacionais de localizadores juntaram-
se em projetos com o objetivo de criar padrões de arquivos
para intercâmbio mundial de informações entre ferramentas de memórias
de tradução. Entre os mais conhecidos e usados estão o TMX
(“Translation Memory eXchange” – Intercâmbio de Memórias de
Tradução) e o TBX (“TermBase eXchange” – Intercâmbio de Base
de Dados de Termos), ambos concebidos e mantidos pelo grupo OSCAR
(“Open Standards for Container/Content Allowing Re-use” –
Padrões Abertos para Conteúdos que Permitam Reuso), da LISA, e o
XLIFF, uma parceria do OSCAR com a Sun Microsystems.
A sintaxe e o formato desses arquivos encontram-se fora do escopo
desse artigo. Mas, é bom saber que esses padrões foram concebidos
para uso em escala mundial e que toda boa ferramenta de memória de
tradução possui um conversor para um ou outro desses formatos.
236 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
Figura 4 - Ferramenta de Memória de Tradução que usa XLIFF
Introdução à internacionalização... 237
Tradução automática (MT, do inglês “Machine translation”)
Esta tecnologia, muitas vezes mal compreendida, difere da
memória de tradução porque efetivamente realiza análise lingüística
nos textos em que é utilizada. Ao passo que as memórias de
tradução são, em teoria, independentes do idioma, os sistemas de
tradução automática dividem o texto de origem em seus elementos
básicos antes de traduzi-los e remontá-los no idioma de destino. Os
resultados não são comparáveis à tradução humana (de alta qualidade),
mas podem oferecer ganhos de produtividade, mesmo que
seja necessário editá-los posteriormente. Como alternativa, podese
usar a MT sem edição posterior, para auxiliar na compreensão
básica. Neste caso, isto é conhecido como tradução “meramente
para informação” ou “gisting”5.
Uma das razões pelas quais a MT não consegue oferecer a mesma
qualidade dos melhores tradutores humanos é porque as máquinas
não conseguem trabalhar com a ambigüidade da mesma forma
que as pessoas conseguem. Além disso, como as pessoas, os sistemas
de MT têm problemas em compreender frases longas e rebuscadas.
Como resultado, as traduções automáticas funcionam melhor
em textos não-ambíguos, “técnicos” ou em áreas de assuntos
restritos (“domínios”). Também são adequadas para grandes volumes
de texto e produzem os melhores resultados quando integradas
a outros processos de geração de documentos e de tradução. Entre
outras coisas, isso ocorre porque a qualidade da redação e da edição
aplicadas aos textos de origem é vital para seu sucesso.
A tradução automática depende muito da qualidade, do tamanho
e da estrutura dos dicionários (conhecidos como léxicos) que o
sistema utiliza. Por exemplo, traduzir um texto de TI somente com
um léxico genérico não produzirá resultados de alta qualidade. Isto
significa que pode ser necessário um tempo substancial de configuração
para os sistemas de tradução automática, mas os resultados
poderão ser muito bons, caso se identifiquem e acrescentem todos
os termos pertinentes.
238 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
Outras ferramentas
Existe toda uma gama de ferramentas que podem ajudar um
tradutor em qualquer parte do projeto da Localização de um
software. As memórias de tradução e os programas de tradução
automática são apenas algumas das ferramentas que podem ajudar
no processo.
As demais ferramentas disponíveis auxiliam nos outros aspectos
do processo de localização, como o gerenciamento do projeto,
em outros aspectos específicos da localização da documentação,
como a ajuda on-line, no desenvolvimento do website localizado do
produto e no controle de qualidade. Várias das ferramentas estão
disponíveis para avaliação no site do Localisation Research Centre
(LRC).
Dentro do projeto de Localização de um software, o papel do
tradutor extrapola as responsabilidades da tradução. Adquirida a
experiência necessária, o profissional pode gerenciar projetos completos
de localização e existem ferramentas criadas especialmente
para auxiliar o profissional nesse processo.
Considerações Finais
Nesse artigo, abordou-se o assunto da Internacionalização e
Localização de Software de forma introdutória, com os conceitos
básicos do processo e dos atores envolvidos, apresentando
ainda sistemas de codificação e ferramentas disponíveis para
trabalhar nesse mercado. Procurou-se caracterizar que a ausência
da internacionalização sistemática dos softwares acrescenta
uma série de dificuldades à fase de localização, sendo,
por isso, importante a adoção das técnicas de internacionalização
para tornar a localização muito mais simples, mais eficiente e
menos sujeita a falhas.
Introdução à internacionalização... 239
Enfatizou-se também a importância da localização e o fato de
que a mesma não se restringe à tradução. Existem diversos outros
processos envolvidos que podem ser avaliados mais profundamente
na bibliografia associada. Também foi feita uma introdução a
tipos de ferramentas que podem auxiliar o tradutor durante a localização
e que permitem abrir um leque de possibilidades profissionais
nesse mercado, bem como garantir um trabalho mais eficiente
e preciso.
Entretanto, a área de tecnologia associada à Internacionalização
e à Localização de software está, atualmente, em efervescência.
O que era verdade e estável há um ano já não o é. As empresas e
organismos internacionais que se dedicam a trabalhar e discutir a
área representam uma comunidade crescente e em permanente
movimento. É necessário estar atento às novas tecnologias e à
evolução da padronização do setor (como os padrões XLIFF, TMX
e Translation WS). Vemos, por fim, que a área é multidisciplinar
por natureza.
O Brasil está entrando no mercado de exportação de software.
Isso gerará muitas demandas e oportunidades de trabalho para profissionais
da área de idiomas, mas estes devem estar preparados
para esta realidade, com tecnologia e dinamismo. Há iniciativas
como as do GeNESS [LISE6, OTIMILS7] para acompanhar e fornecer
informações adequadas para os profissionais interessados
neste novo mercado de trabalho.
240 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
Notas
1. É desnecessário dizer que a palavra Internacionalização é longa. Em inglês, a
palavra Internationalization possui 20 letras. Alguém, que buscava uma forma reduzida
de escrever esta palavra, teve a idéia de utilizar a seguinte lógica: utilizar a primeira
e a última letra intercaladas pelo número de letras que ficam entre elas. Assim,
criou-se a sigla I18N.
2. A lógica de criação da sigla L10N é a mesma descrita para I18N.
3. www.m-w.com
4. O padrão ISO 8859 é composto por uma série de conjuntos de caracteres,
identificados pelo número que segue o hífen final (ISO 8859-1, -2, -3, ...),
representando diferentes subconjuntos do padrão completo, como o subconjunto de
caracteres latinos, cirílico, grego, árabe, etc.
5. O termo “gisting” também é utilizado em alguns casos para descrever o resumo
de textos monolíngües, que não é o caso aqui.
6. LISE – Simpósio de Localização e Internacionalização de Software para Exportação
– http://lise.geness.ufsc.br
7. OTIMILS – Observatório de Tecnologia e Inteligência de Mercado de
Internacionalização e Localização de Software – http://i18n.geness.ufsc.br
Obs.: As atividades de Internacionalização e Localização de software do GeNESS,
aos quais os autores estão vinculados, tiveram o apoio da Finep em 2004.
Introdução à internacionalização... 241
Referências
ALBUQUERQUE, Alessandra. (2005). “Localização, Globalização, Localização
e Tradução: Algumas considerações”. On line: em www.iscap.ipp.pt/cml/pgtac/
ficheiros/teoria/Sistemas_TA.ppt. Acesso em 15/03/2005.
CADIEUX, Pierre; ESSELINK, Bert. (2002). “Globalization insider”. In: GILT:
Globalization, Internationalization, Localization, Translation. v. 1, nº 5. On line:
http://www.lisa.org/globalizationinsider/.
CID, Fabiano. (2004). “Multilingual Computing & Technology”. In Localizing
for Brazil. Edição 62, Vol 14, nº 3.
CORRIGAN, John; FOSTER, Tim. XLIFF: An Aid To Localization. On line:
developers.sun.com/dev/gadc/technicalpublications/articles/xliff.html
DePALMA, Don. (2002). Business Without Borders: A Strategic Guide to Global
Marketing. New York: John Wiley & Sons; 1a. edição.
ESSELINK, Bert. (2000). A Practical Guide to Localization. John Benjamins
Publishing. Development Editor: Arjen-Sjoerd de Vries. Copy Editor: Shiera
O’Brien.
HARRIS, John; MCCORMACK, Ryan. (2000). “Translation is not enough. Considerations
for global Internet development”. On line: www.sapient.com/pdfs/
strategic_viewpoints/globalization_a4.pdf. Acesso em 15/03/2005.
LOMMEL, Arle & FRY, Debora. (2005). Manual de Introdução à Localização.
Título original: The Localization Industry Primer. 2a. edição. On line: www.lisa.org/
products/primers/primer2_poBR.pdf. Acesso em 15/03/2005.
LOCALIZATION INDUSTRY STANDARDS ASSOCIATION. On line:
www.lisa.org. Acesso em 15/03/2005.
242 Achilles C. Prudêncio, Djali A. Valois e José Eduardo De Lucca
LRC (Localisation Research Centre). Industry Software Localisation Tools. On
line: http://www.localisation.ie/exchange/loctools.htm. Acesso em 15/03/2005.
UNICODE Consortium. (2004). The Unicode Standard Version 4.0.1. On line:
www.unicode.org/versions/Unicode4.0.1. Acesso em 15/03/2005.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

3 Dez 2012

http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/CCL/projeto_todasasletras/inicie/MarianaMininel.pdf

Legendagem: Por um Diálogo entre a Tradução Audiovisual e a
“Fidelidade” do Tradutor.
Subtitling: A Dialogue between the Audiovisual Translation and
the Translator “Fidelity”.
Mariana Mininel de Almeida
Centro de Comunicação e Letras – Universidade Presbiteriana Mackenzie
Rua Piauí, 143 – 01241-001 – São Paulo – SP
ma_mininel@hotmail.com
Resumo: As traduções de textos legendados têm características únicas que as
distinguem de outras traduções. A presente pesquisa analisa e classifica as
omissões mais freqüentes existentes nas traduções para as legendas do inglês
para o português em. As particularidades desta atividade, como a sincronia
tempo/espaço, fala/imagem, e o contexto cultural influenciam na
responsabilidade do tradutor ao transferir um conteúdo de uma língua para
outra de forma satisfatória. Além disso, o estabelecimento dos objetivos da
tradução e do público-alvo segundo a teoria do skopo foi determinante nas
escolhas para a análise. Para tal, as noções de fidelidade, traição e
invisibilidade precisam ser questionadas. A visão proposta pela desconstrução
contribui para esse novo conceito de fidelidade e para refletirmos quanto ao
papel do tradutor.
Palavras-Chave: Fidelidade. Legendagem. Omissão. Desconstrução
Abstract: The translation of subtitle texts has unique characteristics that
distinguishes it from any other kind of translation. The present research
analyses and classifies the most frequent ‘omissions’ in the translation of
subtitle texts from English in to Portuguese. The synchrony between
time/space, speech/image, and the cultural context influences the transposition
of the content from one language in to another in a satisfactory way.
Moreover, determining the translator objectives and the audience according
to the skopos theory was crucial for the choices made. In order to do that, the
notions of fidelity, betrayal and invisibility must be questioned. The vision
proposed by the deconstruction contributes to this new concept of fidelity and
to reflecting on the translator’s role.
Keywords: Faithfulness. Subtitling. Omission. Deconstruction
1. Introdução
A proposta do presente trabalho é analisar a tradução destinada a legendagem do
11º episódio da 5º Temporada do seriado Friends, hoje reconhecida como uma das
séries norte-americana mais assistida pelos telespectadores brasileiros.
Observar-se-á se o legendador manteve-se ou não fiel ao texto original. Tal
estudo apresenta algumas dificuldades, tanto pela troca realizada entre o tradutor e o
original, como pelas diversas interpretações do conceito de fidelidade em tradução.
Em conjunto com uma reflexão sobre o que constitui o árduo processo na
criação de legendas até chegar às telas, levando sempre em consideração os clientes e o
público-alvo, este trabalho possui como pano de fundo o suporte da Teoria do Skopos de
Reiss e Vermeer (1996), a quem se destinam as traduções e adaptações.
Será apresentado, também, um levantamento de teorias referentes à fidelidade à
luz do logocentrismo que considera a tradução como uma simples transferência de
significado de uma língua de partida para uma determinada língua de chegada, em
contrapartida à visão desconstrutivista proposta por Jacques Derrida, que confere ao
tradutor uma posição autoral, na qual a tradução assume um papel indispensável para a
sobrevivência do texto de partida. Essa visão sugere, também, que não existe relação de
equivalência absoluta entre duas línguas distintas.
2. O que é tradução?
Definir o que é tradução não é uma tarefa. É um processo que não significa
simplesmente substituir um texto da língua de partida para língua de chegada. Esse
processo não envolve só a língua, mas também a cultura e o contexto.
Podemos então reunir um pouco de cada definição proposta por teóricos, tais
como Rosemary Arrogo, Geir Campos, Heloísa Barbosa, e concluir de forma bastante
sintetizada que: Tradução é o processo no qual se transfere um texto da língua de
partida para a língua de chegada, levando em conta não só as línguas envolvidas, mas
também a cultura e o contexto onde estão inseridos o autor e o tradutor.
Como tradutores, o que temos a nossa frente são textos, considerados cada um
deles como uma rede complexa de obstáculos lingüísticos e não lingüísticos
aparentemente intransponíveis, a exigir de nós a compreensão do que o autor quis dizer
ou o que achamos que ele quis dizer na sua própria língua. O mais difícil, neste caso, é
“desmontar” o original e “remontá-lo” na língua de chegada, de maneira aceitável.
3. Teoria do escopo: leitor/telespectador
Em uma série de recentes teorias de tradução apresentadas na Alemanha
(particularmente Reiss e Vermeer,1984; Hönig e Kussmaul,1982) nota-se a prevalência
de uma orientação em direção ao cultural mais do que a orientação para a transferência
lingüística. Tais abordagens vêem a tradução não como um processo de
transcodificação, mas como um ato de comunicação, as quais são orientadas em direção
da função do texto-alvo mais do que em direção das prescrições do texto-fonte, e por
fim vêem o texto como uma parte integrante do mundo e não como uma espécie de
língua isolada.
Quando alguém traduz ou interpreta um texto, produz um novo texto. A
tradução/interpretação também deve funcionar de forma adequada para a finalidade
prevista. Ou seja, o que está em jogo é a capacidade de funcionamento do translatum
numa determinada situação, e não a transferência lingüística com a maior fidelidade
possível a um texto de partida, concebido sempre em outras condições, para outra
situação e para “usuários” distintos do texto final.
4. O processo da tradução audiovisual
Primeiramente definiremos a tradução audiovisual como o conjunto de práticas
que envolve principalmente a tradução oral e escrita de séries de televisão, filmes,
programas de entretenimento, desenhos animados, documentários, novelas, projetados
para cinema, VHS e DVD. Ao serem distribuídos, muitos destes produtos são passados
para a língua-alvo e transmitidos ou por meio da dublagem ou por meio da legendagem.
Na legendação, um dos fatores primordiais é o equilíbrio entre a imagem, o
tempo de fala e o texto escrito traduzido, ou seja, para que obtenhamos o sincronismo
na legendação, é necessário que observemos o tempo de apresentação do seriado (aqui
abordado), o tempo de entrada e retirada da legenda e o tempo de leitura do
telespectador.
Sendo assim, a legenda envolve a transformação de um original em código oral
para um produto traduzido em código escrito. Bem como os aspectos lingüísticos e
textuais, vale lembrar que a tradução audiovisual é afetada também por vários fatores
que influenciam seu resultado final, como o sincronismo, o qual requer o equilíbrio
entre a imagem, o tempo de fala e o texto escrito traduzido; o volume de texto, ao
consideramos o tempo de fala na tela que será sempre maior do que o equivalente a 12
caracteres por segundo, os aspectos técnicos do processo, como as marcações, pausas e
cortes e roteiro em si, e o papel dos profissionais envolvidos na tradução.
4.1 Normas da tradução para legendas
De forma quase unânime, empregam-se no máximo duas linhas de legendas (o
número máximo de caracteres por linha varia segundo o meio) e estabelece-se uma
razão entre o tempo de duração de cada legenda e o número máximo de caracteres que
ela deve comportar para que o espectador tenha tempo de lê-la. Normalmente os
padrões mais encontrados na literatura sobre legendagem são baseados no número de
palavras lidas em um minuto, estipulado em 150 a 180 palavras, segundo Karamitroglou
(1998) em A proposed set of subtitling standards in Europe, e na chamada “regra dos
seis segundos”, que estabelece que o espectador médio demore seis segundos para ler
duas linhas de legendas cheias, com 35 caracteres cada, de acordo com Henrik Gottlieb
(1992) na obra Teaching translation and interpreting. Mas o número exato de caracteres
por segundo, determinado em cada situação, varia em função do meio empregado, do
público-alvo e de preferências dos clientes.
4.2 Normas referentes ao meio
O sistema brasileiro apresenta três meios diferentes de se empregar uma legenda,
aquele empregado na legendagem de filmes para a exibição nos cinemas, o utilizado em
DVD e o ligado à tradução para VHS e canais de televisão por assinatura.
5. Fidelidade
Abordagens recentes da atividade tradutória apontam para inúmeros problemas
enfrentados pelos profissionais da área, desde o estilo do autor, a cultura, o ambiente, a
naturalidade, o sentido, as normas gramaticais, até uma das maiores preocupações,
relativa a uma pretensa “fidelidade” devido ao chamado texto “original”.
À primeira instância, a tradução será fiel à leitura que fazemos do texto de
partida, além disso, a fidelidade varia de acordo com as intenções do tradutor. No
entanto, isso não significa que serão aceitos quaisquer critérios ao avaliarmos uma
tradução. Aceitar-se-ão aquelas traduções que consideramos “fiéis” às nossas próprias
concepções teóricas e textuais, e serão desaprovadas as traduções que seguem
pressupostos que não compartilhamos. Nota-se, portanto, a impossibilidade de uma
tradução ser aceita por todos, em qualquer lugar e época, pois assim como nós, as
traduções não são estáveis.
5.1 A invisibilidade do tradutor
Considerar-se-á, que no âmbito das discussões teóricas sobre tradução mais
recentes, a fidelidade na tradução não é mais entendida como aquela pretendida pelo
logocentrismo, na tentativa de “reproduzir” o texto de partida, mas está relacionada à
inevitável interferência por parte do tradutor, à sua interpretação e manipulação do
texto. O tradutor é entendido como um sujeito inserido num contexto cultural,
ideológico, político e psicológico - que não pode ser ignorado ou eliminado ao elaborar
uma tradução. O tradutor faz-se, então, “visível”.
5. 2 Fidelidade: À luz do logocentrismo e da desconstrução
O conceito de fidelidade sob a visão tradicional – logocêntrica, considera o texto
de partida como um elemento congelado, de significados estáveis. Defende-se, também,
que traduzir é transportar de forma “protetora”, os significados que se imaginam
estáveis, de um texto para outro e de uma língua para outra. Este transporte implica uma
preservação ideal do significado original, sem nenhuma alteração ou entropia, ou seja, o
tradutor não infere e nem interpreta o texto de partida.
Em oposição a essa tradição, a visão desconstrutivista de Derrida desestabiliza a
oposição existente entre o texto original e a tradução, em que a tradução é colocada num
patamar inferior ao “original”. A desconstrução reconhece que é “a diffèrence
promovida pela leitura e pela tradução que torna possível a sobrevivência de qualquer
texto” (ARROJO, Rosemary, 1993:77).
Aquela concepção tradicional de fidelidade, como já foi referida anteriormente, que
leva o tradutor a sentir-se culpado, quando inevitavelmente interfere no texto que
traduz, é apagada dentro dos pressupostos desconstrutivistas pois estes reconhecem a
visibilidade do tradutor, responsável pela sobrevivência do original, a ele compete o
papel de “outro” autor, e é ele que permite a travessia não só da língua em si, como
também da cultura e dos complexos elementos estrangeiros.
6. O emprego da omissão
Quando é necessário omitir parte do enunciado para que a legenda não
ultrapasse o número de caracteres permitidos, o que é bastante freqüente procura-se
manter na legenda os itens lexicais entendidos como mais carregados de sentido e
relevantes para o enunciado. Além disso, na medida do possível, são mantidas palavras
do diálogo que foram enunciadas de forma a serem mais enfatizadas ou que tendem a
ser identificadas ou compreendidas com mais facilidade pelo público-alvo, seja por
terem significado conhecido ou por se assemelharem foneticamente a uma palavra da
língua de chegada.
É através das imagens e do texto oral que os expectadores complementam a
coesão que falta ao texto, confirmando quem são os interlocutores, a que objetos se
referem, e quais as emoções e intenções que estão por detrás do enunciado.
7. Análise
Com base nas teorias referidas anteriormente, será apresentado e analisado um
trecho da legendagem do seriado norte-americano Friends (5º Temporada), no qual
observar-se-á a incidência muito forte da síntese do texto original para a legendação.
Episódio 11º. 5º Temporada
Ross: “I’m gonna go kiss Ben goodnight”
Tradução:
Ross: “Vou dar um beijinho no Ben”
Comentário:
A expressão de cumprimento ‘goodnight’ foi omitida. O tradutor pode ter
optado por tal omissão por acreditar ser de conhecimento prévio por parte do público de
língua portuguesa, que pela cena se passar à noite, ficaria subentendido que Ross daria
um beijo de boa noite em seu filho. Esta omissão não compromete o entendimento do
telespectador – em caso de o cliente exigir a permanência da literalidade, uma opção
mais viável seria: “Vou dar um beijinho de boa noite no Ben”.
De acordo com Ercília Maria Hough, poder-se-ia justificar tal omissão, porque
além da expressão ‘goodnight’ estar implícita no presente contexto, um dos recursos por
ela aconselhável é o de se evitar o uso de adjetivos e advérbios, que tendem a ser mais
empregados pelos falantes de língua inglesa do que pelos de língua portuguesa.
Conclusão
A noção de que o original é “desconstruído” durante o processo de leiturainterpretação
tem impacto direto sobre a noção de tradução, de originalidade e, portanto,
de autoria. A intertextualidade, inevitavelmente, permeia todo ato de leitura e de escrita,
de modo que o autor de um texto não é mais o detentor único ou origem primeira das
idéias que procura exprimir. Da mesma forma, segundo a pós-modernidade, o tradutor,
como qualquer indivíduo, passa a ser entendido como pré-determinado pela cultura na
qual está inserido, pelos valores ideológicos, por suas experiências, por todos os textos
que leu e conhecimentos que detém, disso resultando a impossibilidade de se deixar de
considerar o somatório de intervenções por ele sofrido durante o processo de tradução.
Ao realizar esta pesquisa, de acordo com Reiss e Vermeer (1996) em conjunto
com as normas propostas por Ercília Maria Hough, pôde-se constatar o quanto é
paradigmático lidar com as escolhas no processo de tradução quando não se trata apenas
de uma ação em nome da “língua pela língua”, mas também em nome do comércio, na
tentativa de agradar ao receptor da sua produção: clientes e/ou consumidores. Logo, o
paradigma está entre a postura fiel de tradução estabelecida pelo tradutor e a noção de
fidelidade calcada pelo senso comum.
Dessa forma, é importante ressaltar que o tradutor precisa saber transitar em
múltiplos sistemas, interagir com outra língua(s) e cultura(s) diferente(s) de sua
língua/cultura materna, ter a sensibilidade para perceber quando deve ou não manter a
literalidade, ampliar sempre seus conhecimentos, de modo a produzir resultados de
qualidade que sirvam aos propósitos de cada um dos envolvidos nesse complexo jogo
que é a tradução.
Referências Bibliográficas
ARAÚJO, Vera L. S. Por que não são naturais algumas traduções de clichês produzidas
para o meio audiovisual? Revista Tradução & Comunicação, São Paulo, n.10. 2001.
ARROJO, Rosemary. Oficina de tradução, a teoria na prática, São Paulo: Ática,
2000. [1. ed. 1986]
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AUBERT, Francis Henrik. As (In)Fidelidades da Tradução: Servidões e autonomia
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BARBOSA, Heloísa Gonçalves. Procedimentos técnicos de tradução: uma nova
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CAMPOS, Geir. O que é tradução? 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
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RODRIGUES, Cristina Carneiro. Tradução: a questão da equivalência. Alfa. São Paulo.
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VÁZQUES-AROYA, Gerardo. Introducción a la Traductologia. Washington,
Georgetown, University Press, 1997.

domingo, 2 de dezembro de 2012

2 Dez. 2012

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